orthopedic pain management

A noite, um patrimônio que corre risco

Astronomia & Astrofísica — By on maio 30, 2010 at 12:49

Unesco foi solicitada para fazer da ‘escuridão’ patrimônio da humanidade

Já estava na hora: os políticos começam, enfim, a legislar sobre o céu noturno. A República Checa aprovou uma lei visando proteger e restaurar o céu noturno, tão ofuscado pelas potentes iluminações artificiais. Respira-se fundo: a noite é “um monumento que corre risco”. Além disso, a Unesco foi solicitada a fazer da noite “patrimônio da humanidade”. Nada mais legítimo. Basta levantar o nariz para o céu para avaliar a amplitude dos estragos: nossas noites são ruínas, monumentos praticamente demolidos.

É evidente que nos países desenvolvidos as devastações são as mais desastrosas. Na Europa, a metade da população não tem mais como ver a Via Láctea, aquele rastro luminoso, composto por bilhões de estrelas que compõem a galáxia. Oitenta por cento dos americanos jamais viu uma noite, eu digo, uma verdadeira noite, uma noite escura, o infinito vazio da escuridão da noite, repleto de estrelas, nebulosas e outros corpos celestes. Dois terços dos europeus encontram-se na mesma situação.

Sabemos muito bem as causas desse enorme “acidente industrial”: a tecnologia, os sistemas de iluminação noturna, que são bem mais potentes do que seria necessário, além de irradiarem luz diretamente para o céu, desperdiçando grande quantidade da escassa energia elétrica. Toda noite, todas as cidades (e mesmo os povoados) da terra – sobretudo no Ocidente – fazem jorrar ondas de luz inútil, que instalam acima de nós “raios luminosos”, que destroem a visão da noite.

Hoje, com a lei decretada pela República Checa, os amantes da noite marcam uma vitória. Essa revolução é considerável. Não obedece a considerações poéticas, mas principalmente a motivos de ordem prática: a comunidade mundial dos astrônomos se mobilizou contra os “poluidores da noite”, pois cada vez mais eles têm dificuldades para exercer sua profissão.

Escuridão – A atmosfera terrestre está tão saturada de luminosidades de todos os tipos, que os grandes observatórios têm cada vez mais problemas para pesquisar as profundezas do céu na escuridão absoluta , decifrando os sutis movimentos e pulsar de distantes corpos celestes.

Além da astronomia, algumas almas um tanto sonhadoras juntam suas dores às desses cientistas: a noite é uma das mais antigas companheiras dos homens. Quantos mitos cosmogônicos ou familiares relatam o medo ou o encantamento que moldou os cérebros dos homens diante da sucessão de luzes e sombras – o azul e o verde fluido da aurora, as fontes de água douradas do meio do dia, o buraco infinito da escuridão da noite? Ora, à noite, perseguida pelos arcos elétricos, pelos bilhões de globos de nossas cidades foi abatida. Esforça-se em vão a procurá-la, ela sumiu.

Mal percebemos essa debandada, essa derrota de nossas noites. Estamos tão acostumados com nossa eletricidade, com os lampiões nas ruas, com o efeito de uma nuvem de poeira que a iluminação artificial produz, que muitos nem mais se lembram da noite.

Os deputados checos que dedicam tempo para salvar a noite me parecem verdadeiros governantes. Eles se ocupam do essencial. “Nem só de pão vive o homem”, diz o Evangelho e, hoje, estamos tentados a dizer: “Os homens vivem também das noites”.

Adaptação da matéria original do jornal O Estado de São Paulo.

Tags: , ,

0 Comments

You can be the first one to leave a comment.

Leave a Comment