Construção ou descoberta

Teoria da relatividade especial e geral, teoria eletrofraca, teoria eletromagnética, teoria dos quarks e, finalizando, GDU (teoria da grande unificação). Essas teorias foram descobertas ou construídas, por uma ou várias pessoas?

Alguns cientistas renomados, autores de livros de física usam a palavra “descoberta” de uma teoria física. Outros, também conhecidos, preferem usar o termo “construção” de uma teoria física. Embora sejam apenas duas palavras, quando as procuramos no dicionário, vemos logo que tais palavras possuem significados totalmente diferentes. “Descobrir” significa algo como você descobrir uma teoria que já estava de fato pronta, feita por alguma entidade em alguma época do universo, esperando unicamente poder se tornar conhecida por alguma pessoa. Já a palavra “construir” tem outro significado, sendo a construção de algo que necessariamente não existe nos moldes que pretendemos construir. Vemos, portanto, que tais significados representam duas coisas mais importantes, que são de fato diferentes.

O papel da física é descrever a natureza, isso não se pode negar. Mas existe toda uma discussão quanto à questão de se as leis da natureza são de fato verdadeiras ou meramente criações do ser humano. O físico americano Steven Weinberg diz em seu livro Sonhos de uma teoria final que acredita de fato que estamos chegando cada vez mais perto das verdadeiras leis que regem a natureza e todo o universo. Isso implica que tais leis já existam, e que por algum motivo o homem ainda não teve capacidade de encontrá-las, seja por não ter energia suficiente nos aceleradores de partículas ou qualquer outro. O fato de as leis já existirem, claramente também implica que alguma entidade as criou, seja lá qual for tal entidade. Esse desencadeamento de consequências leva, na minha opinião, a uma ideia não tão verdadeira quanto aos objetivos reais da física, e mais importante, a uma ideia intrínseca de um ser criador de tais teorias.

Por outro lado, alguns físicos usam o termo “construir”. Na física, poderíamos pensar nisso como: não sabemos e de fato nunca saberemos por que o universo e a natureza são como são; a única coisa que fazemos é descrever a natureza e o universo, com nossas melhores ferramentas, através de teorias. Isso implica, obviamente, a não existência de teorias e leis verdadeiras; isso implica, sim, em um aperfeiçoamento de nossas ideias e teorias para explicar melhor fenômenos que já conhecemos e outros que iremos conhecer.

Na versão “descobrir” uma teoria, poderíamos imaginar algo como: temos uma caixa fechada com um conjunto de leis e teorias que regem o universo. Nós, seres que estamos fora da caixa, tentamos incansadamente obter teorias que cheguem o mais perto e um dia sejam exatamente como o conjunto de leis e teorias dentro da caixa. Mesmo que não conseguirmos, sabemos que as leis verdadeiras do universo estão lá, ou seja, elas existem. Já na versão “construir” não existe tal caixa, nem leis e teorias pré existentes. Tudo que fazemos é representar o universo da melhor maneira que podemos.

Essa discussão é muito mais profunda do que abordei aqui, por isso espero poder discutir através de comentários e debater ideias e opiniões de outras pessoas. No meu simples ponto de vista, prefiro a versão “construir” teorias. Acredito que seja mais real e que com essa versão fugimos um pouco da necessidade de recorrer a uma entidade criadora das leis e teorias já existentes no universo muito antes dele próprio ter sido criado.

About the author: Jonas Floriano Gomes dos Santos

Bacharel em Física pela Universidade Federal de São Carlos. Cursando Mestrado em Física na mesma instituição com o tema: Propagação de Perturbações Tensoriais em Cenários Cosmológicos.

5 comments to “Construção ou descoberta”

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  1. Cibele - 9 de abril de 2012 at 14:15

    Adorei, nunca havia pensado nisso. Mas, acredito, que de uma certa forma tanto descobrimos quanto construímos. Descobrimos baseados em outros fatos e construímos, pois nos aprofundamos para descobrir significados que, na realidade, nunca vamos saber com certeza. Mas construindo ou descobrindo é fascinante. Parabéns pelo texto 🙂

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    José Victor de Oliveira Neto Resposta:

    Até onde pude vislumbrar, as leis da Natureza são pre-existentes. Todos os corpos em queda livre caem da mesma maneira, e isto independe forma, massa, cor, etc. desse corpo.
    Para citar só um exemplo entre muitos outros. O comportamento em queda livre é o mesmo desde que o universo se formou. Mas ninguém sabia disso, até que Galileo descobriu o crime,usando apenas um raciocínio lógico, que mostrou que um corpo de um bilhão de quilogramas e uma pena caem sempre com a mesma aceleração no espaço a que pertencem. Desbancando, a reboque, Aristóteles. Esta é uma lei universal, válida em qualquer lugar do cosmos. E nenhuma entidade criou esse “modus” comportamental! Não existe entidade alguma capaz de tamanha proeza. A não ser que fosse um Einstein!…O Universo comporta-se assim, simplesmente. Pode até ser que todas as leis da Natureza obedeçam aos princípios da Teoria da Evolução, do mesmo jeito que os seres vivos estão sujeitas a elas, conforme mestre Darwin descobriu, por simples observação e mente preparada para enfrentar as surpresa. Ele não construiu nada disso. Mas conseguiu descrever em ótima medida as coisas, conforme as coisas acontecem. Em minha opinião o mesmo é válido para as leis da física. O que é dado, então, ao homem construir? Isto: desenvolver uma linguagem que possa descrever e quantificar essas leis. É onde entra a matemática que, minha opinião, também não é obra exclusiva da criação humana, mas de descobertas! Mas este é outro assunto fascinante, e controvertido. Mas muitos matemáticos,têm essa opinião.Eu, particularmente, enxergo como pode haver controvérsias nesses assuntos.

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    Jonas Floriano Resposta:

    Olá José.

    Obrigado pelo comentário. Infelizmente me parece que os proprietários do site não desejam mais receber meus textos, pois eu os envio mas eles não são postados. De qualquer forma, continue escrevendo.
    Abraços.

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  2. Gabriel Pivetti - 9 de julho de 2012 at 1:15

    Primeiramente, grande matéria e reflexão.
    Gosto do conceito de construirmos teorias ao passo que descrevemos e descobrimos o universo a partir de nosso referencial (este baseado no milésimo de “segundo cósmico” da ciência humana). A contribuição de cada “descoberta” proporciona a “criação” de um teoria para descrever um determinado fenômeno, baseado no conhecimento atual e utilizando-se das “ferramentas” disponíveis.

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  3. Armando Simoes - 5 de abril de 2014 at 10:48

    Quando um experimentalista consegue obter uma correlação até aí desconhecida, penso que será feita uma descoberta, pois essa correlação sempre terá existido, apenas ninguém ainda tinha nela reparado. De facto, se as coisas funcionam como o fazem, algumas correlações terão de existir ou o mundo seria totalmente incerto e aleatório. Pelo menos macroscopicamente isto perece ser assim.
    Microscopicamente, dado o enormissimo grau de ignorância de que dispomos, para já, apenas podemos trabalhar com probabilidades de…ser assim ou ser o seu contrário, ou nem uma coisa nem outra.
    Acresce que só dispomos de termos designativos de coisas macroscópicas, como “ondas”, “partículas”, etc., para falar das coisas microscópicas. De facto só medimos e verificamos a existência de efeitos macroscópicos, pois a realidade microscópica está fora do alcance dos nossos sentidos. E isto é assim mesmo quando são fenômenos microscópicos os causadores dos macroscópicos efeitos que vemos e medimos.

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